Mulher Samaritana. Lectio Divina 2017 com Dom Waldemar. 3º Sábado

Hoje nos sentamos junto à Palavra do Pai que é Jesus. Ele tomará a iniciativa do diálogo conosco, há de falar ao nosso coração. Na Lectio Divina, iniciamos a oração pela escuta, depois falamos ao nosso Deus. E lhe falamos com a mente iluminada e com o coração desejoso de fazer o bem!

Como comunidade reunida na fé e no amor, ou seja, vivendo as promessas de Jesus à sua Igreja, temos a certeza da presença do Senhor, fonte de todas as bênçãos. Benvindos, irmãos e irmãs! Benvindos, queridos jovens!

Lectio

Ouvimos na proclamação do evangelho um texto mais longo, e encontramos pela primeira vez o evangelho segundo João nesta quaresma. Ele nos traz uma cena bonita, de fácil acesso, com diálogos reveladores. Vamos abrir nossas bíblias, e mãos à obra! A leitura de Jo 4,5-42, com calma e atenção, nos abre a porta da Lectio Divina.

Jesus se revela a uma mulher samaritana junto ao poço de Jacó. Que mulher é essa? – Uma mulher de grande sede, de muita busca, de uma fé que a faz esperar. A fé, eis o ponto de partida para acolher o dom de Deus. Duas falas da mulher samaritana revelam sua “sede de interioridade”:

“Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.

“Eu sei que virá o Messias (isto é, o Cristo); quando ele vier, nos fará conhecer todas as coisas”.

(Jo 4,19s.25)

Ao chegar neste ponto do diálogo, Jesus se revela inteiramente à mulher samaritana:

Jesus lhe disse: “Sou eu, que estou falando contigo”.

(Jo 4,26)

Jesus conduziu aquela mulher até à sua busca mais profunda, e lhe deu de beber. Ou seja, Jesus se apresenta a ela como o Messias, o Cristo, que ela esperava. Aquele que revelaria todas as coisas está ali, diante dela, falando com ela. Uma experiência de encontro que aquela mulher nunca tinha vivido e que vai transformar sua vida. Antes, ela podia se definir como sedenta, desejosa, pessoa à procura… E depois, quem se tornará?

Vejamos no texto os indicativos dessa vida em busca, ou seja, vida-não-saciada:

Chegou uma mulher da Samaria para tirar água.

A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem tenha de vir aqui para tirá-la”.

– “Eu não tenho marido”, respondeu a mulher. Ao que Jesus retrucou: “…o que tens agora não é teu marido”.

A mulher lhe disse: “Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram sobre esta montanha, mas vós dizeis que em Jerusalém está o lugar em que se deve adorar”.

(Jo 4,7a.15.17a.18b.19s)

E, novamente, Jo 4,25:

“Eu sei que virá o Messias (isto é, o Cristo); quando ele vier, nos fará conhecer todas as coisas”.

Da contínua busca, indicativo da não-satisfação, a mulher samaritana passará à saciedade. Que milagre terá acontecido? Qual o sinal da superação da sede?

A mulher deixou a sua bilha e foi à cidade, dizendo às pessoas: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?

(Jo 4,29)

A busca se tornou encontro, a sede, uma saciedade transbordante! Tudo isso porque entrou em diálogo com Jesus, o Messias, aquele que dá água viva.

Mas esse diálogo foi uma conquista de Jesus, que tomou a iniciativa, pedindo água:

“Dá-me de beber”.

Eis, mais uma vez, a força da bendita fragilidade de nosso Senhor (Lectio com o evangelho do 2º Domingo da Quaresma). É a partir de sua condição de necessidade que ele nos interpela, pedindo… E depois, se dá inteiramente a nós, saciando-nos!

Jesus nos satisfaz com a sua saciedade. Observemos isso no texto que segue, quando os discípulos chegam de volta com a comida.

Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus: “Rabi, come!” Mas ele lhes disse: “Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis”.

Jesus lhes disse: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra. Não dizeis vós: “Ainda quatro meses, e aí vem a colheita?

Pois eu vos digo: levantai os olhos, e vede os campos,

como estão dourados, prontos para a colheita!

(Jo 4,31.34)

A saciedade oferecida por Jesus inaugura em nossa vida uma nova dimensão: saciar o outro, ou melhor, saciar o Outro!

A vontade do Filho é fazer a vontade do Pai. E Jesus nos disse qual é a vontade do Pai:

Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Estes são os adoradores que o Pai procura.

(Jo 4,23)

Meditatio

A este ponto estamos iniciando nossa meditação. Da leitura do texto, passamos, quase espontaneamente, ao diálogo entre textos. Na meditação as Escrituras se abrem, as águas nos são oferecidas com maior abundância.

As vitórias de Jesus sobre o inimigo (Lectio com o evangelho do 1º Domingo da Quaresma), comunicadas a nós pela graça da fé e do batismo, nos conduzem a uma meta maior em nossa existência: dar ao Pai os adoradores que ele procura.

Do alto da Cruz, Jesus,

“sabendo que tudo estava consumado, e para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: ‘Tenho sede’!”

(Jo 19,28b)

Será que podemos dizer que Jesus recolheu em sua sede todas as buscas da humanidade? Recolheu nossa experiência de precariedade, nossas necessidades, nossos sonhos, ilusões e projetos de felicidade?

Diante do testemunho da mulher samaritana, talvez compreendamos bem essa realidade. Jesus realiza um intercâmbio de vida: assume a sede, a falta, a necessidade, o desencontro, até o pecado, e oferece a água viva, a saciedade-desejosa de tudo reconduzir ao Pai. Saciada, ela volta ao povoado sem levar seu cântaro!

Mas ela não foi a única a deixar. Abraão foi o primeiro saciado pela Palavra da fé que deixou:

O Senhor disse a Abrão: “Sai de tua terra, do meio de teus parentes,

da casa de teu pai, e vai para a terra que eu vou te mostrar.

(Gn 12,1)

Moisés, saciado pelo encontro com Deus, deixou a cultura e o bem-estar palacianos; deixou seu projeto pessoal de libertar o seu povo:

O grito de aflição dos israelitas chegou até mim.

Eu vi a opressão que os egípcios fazem pesar sobre eles. E agora, vai!…

(Ex 3,9s)

Jeremias deixou o projeto do casamento e o sacerdócio hereditário da antiga aliança:

Veio a mim a palavra do Senhor: “Antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já te conhecia, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta para as nações. (…) Não digas: ‘sou uma criança’, pois a quantos eu te enviar irás”.

(Jr 1,5.7)

Os apóstolos estão sendo formados para, no seguimento de Jesus, deixar:

Em seguida, Pedro tomou a palavra e disse-lhe: ‘Olha que nós deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?

(Mt 19,27)

(- campos dourados!) (cf. Jo 4,35b)

O Apóstolo Paulo faz a síntese:

Mas essas coisas, que eram ganhos para mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele.

(Fl 3,7-9a)

Todos os que foram encontrados pela Palavra de Deus, também foram por ela saciados. Seus planos se reorientaram, “mudaram de sede”. Passaram a ver “os campos dourados”, prontos para a colheita, e entraram no trabalho de Deus.

Onde e como Jesus hoje nos pede um pouco de água? Onde está nossa sede, aí se encontra Jesus a nos buscar. Jovem, você tem sede de quê?

Desejo de interação (…redes sociais), desejo de reconhecimento, de aventura, de sucesso, de compreensão e carinho, de presença e companheirismo, de intimidade e de verdade? São grandes buscas, muita sede!

Escutemos a Palavra:

A mulher deixou a sua bilha e foi à cidade, dizendo às pessoas: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?

(Jo 4,29)

Homens e mulheres tocados pela Palavra são por ela saciados e enriquecidos. Novos horizontes passam a fazer parte do mesmo cotidiano, transformado pelo encontro-saciedade e pela “ambição maior”: a sede do Pai compartilhada conosco.

Jesus, mais que resolver nossos problemas, reorienta nossa busca. O que era velho, passou. Fica a bilha, o cântaro, junto ao poço. Ficam também ali a carteira, o ingresso do show, o site de relacionamentos, o Face e o WhatsApp no celular…

Deixar, na vida cristã, não é, em primeiro lugar, sacrifício. Deixar é um sinal do encontro mais profundo, é o distintivo do fascínio que Jesus exerce sobre nós, reconquistando-nos e nos oferecendo o Pai. Depois, somos reincorporados à rotina, com um novo desejo: compartilhar a vida recebida e transbordante em nosso interior, “como fonte de água de jorra para a vida eterna” (Jo 4,14b).

Oratio

A fé manteve o coração da mulher samaritana aberto às surpresas de Deus. Hoje somos convidados a ouvir a voz do Senhor. Rezemos com juntos o Salmo 94(95).

Acrescentemos, uma prece de louvor de um coração transbordante de gratidão, o Imaculado Coração de Maria. Digamos juntos:

A minh’alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu salvador,

Porque ele olhou para a humildade de sua serva.

Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz, porque o Poderoso fez por mim coisas grandiosas.

O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.

Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os que têm planos orgulhosos no coração.

Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.

Encheu de bens os famintos, e mandou embora os ricos de mãos vazias.

Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre”

Contemplatio

(Diante do Santíssimo Sacramento, reconheçamos a medida alta do dom de Deus!)

Actio

  1. Sentar-se junto à fonte que é o evangelho de Jesus. Continuar a leitura orante do evangelho segundo Mateus;
  2. Breve oração dita muitas vezes ao longo dos dias: – muito obrigado, Senhor!
  3. Para os namorados: passar da sede do outro à convivência como boa-nova para o outro.

Deixe uma resposta