Deus pode morrer?

Pode até não ser o que gostaríamos de ouvir, mas Jesus nos mostrou como encontrar a vida através do sofrimento e da morte.

“Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.”  (Lucas 23:46)

Certa vez, pedi a uma amiga teóloga para me explicar como é possível que Deus, o Criador do Universo, possa morrer e ainda manter o mundo em existência. Minha amiga me disse que era possível porque Jesus, uma Pessoa Divina, é Deus verdadeiro e verdadeiro homem. O Filho de Deus teve uma morte humana, mas sua divindade não morreu.

Claro que isso é verdade, e por um tempo eu me senti satisfeita com a resposta. Mas este momento paradoxal do Deus-homem morrendo na Cruz – tão cheia de significado e mistério – continuou me fascinando.

Você já refletiu sobre os últimos momentos da vida de Jesus na Terra?

Muito frequentemente, nós achamos naturais os mistérios da nossa fé mas, às vezes é preciso quebrar a monotonia, fazer suposições e e olhar para nossa fé com outros olhos.

Refletir sobre os momentos finais da vida de Jesus pode fazer-nos mergulhar em uma escuridão de paradoxo e admiração, o que nos aproxima do mistério de nosso Deus Triúno.

O Deus da Vida morreu na cruz para que Ele nos trouxesse a vida. A vida veio para a terra e enfrentou a morte por amor a nós. Um hino latino do século VI, “Vexilla Regis” (“A Bandeira do Rei”), capta este paradoxo numa estrofe pungente:

Agora brilha o mistério da Cruz;

Sobre ela, a vida enfrentou a morte,

E ainda pela morte alcançou a vida.

Grande parte desse mistério está além da compreensão humana, mas o conceito da morte como causadora da vida foi possível graças à morte de Jesus. Esse modelo redentor se repete em nossas vidas todos os dias.

Jesus mostrou-nos como encontrar a vida através do sofrimento e da morte. Não é a resposta que gostaríamos de ouvir, mas na nossa jornada pela vida espiritual, percebemos que encontramos a vida precisamente quando desistimos de alguma coisa e lembramos que precisamos Dele mais do que tudo. Às vezes isso acontece na tragédia, sem a nossa vontade ou desejo. Às vezes, isso acontece em momentos de mal terrível, momentos que sabemos que Deus nunca orquestraria, mas só os permitiria por alguma razão insondável.

Finalmente, despojado de tudo, somos como Jesus, nus na Cruz. Mas nesta pobreza e simplicidade, paradoxalmente, encontramos alegria e paz. No meio da dor, ficamos surpresos ao encontrar sinais de vida vigorosa.

Através da Via Sacra de nossas vidas, encontramos a graça da Ressurreição.

Este ideal parece tão distante para a maioria das pessoas que se apega a pequenas coisas, como se nossas vidas dependessem do nosso programa de TV favorito, da nossa auto-imagem, do nosso perfil na mídia social, dos nossos talentos ou da nossa saúde . Nós achamos que precisamos disso para sermos felizes. Nossas vidas estão cheias de pequenos amores, bons e maus, que competem para afastar Deus e se colocarem no centro.

Mas de vez em quando, geralmente através de um grande sofrimento ou tristeza, somos expulsos da porta giratória de nossas vidas. E através desse sofrimento, se estivermos abertos, receberemos grandes graças para colocarmos novamente Deus em primeiro lugar. Às vezes abrimos mão de alguma coisa para termos de volta o que quer que seja ou quem quer que tenha sido arrancado de nós. Mas às vezes isso é impossível. Então, agradecemos a Deus pela luz que ele acendeu na escuridão.

Recentemente, uma irmã religiosa, uma Filha de São Paulo, faleceu na Índia. Antes de morrer, disse a suas irmãs: “Estou feliz! Não tenho nada porque dei tudo a Deus … estou pronta para morrer “. Este é o paradoxo da vida espiritual, à qual também somos convidados.

Como Jesus, somos convidados a nos despojarmos de cada coisa que amamos em nossas vidas, até mesmo as pessoas que mais amamos, sabendo que vamos vê-las novamente. Fazemos isso para que, nos últimos momentos, possamos dizer com grande alegria: “Pai, eu te dei tudo, o bem, o mal, até mesmo algumas das pessoas que mais amo, e agora te dou a última coisa que tenho: minha vida … Em suas mãos eu confio o meu espírito.”

Fonte: Aleteia

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