Nossa “cultura de tolerância” foi moldada por pensadores modernos e por São Paulo

São Paulo escreveu: “Não tem nada a ver com argumentos tolos e estúpidos, porque você sabe que eles produzem discussões”

Ao contrário de noções como justiça e prudência, que têm sido objeto de reflexão filosófica desde tempos antigos (ambos são proeminentes nos diálogos de Platão e na Ética a Nicômaco, por exemplo), a tolerância é uma noção moderna. O termo começou a aparecer consistentemente nos escritos dos filósofos em torno da primeira metade do século 16, e só ganhou destaque no século 17.

O termo ganhou relevância porque começou a desempenhar um papel importante em dois debates diferentes. Por um lado, pode-se dizer que a tolerância foi a pedra angular de toda discussão sobre a estabilidade do Estado.

Muitos filósofos do século 16 estavam envolvidos no debate político, procurando maneiras adequadas e viáveis ​​de tornar o Estado mais estável (isto é, menos propenso a cair em guerra civil). Para alguns deles – veja, por exemplo, o Tractatus Theologico-Politicus de Spinoza – conceder aos sujeitos do Estado os direitos do pensamento livre e da liberdade de expressão era um arranjo que garantiria tal estabilidade. Esses filósofos deram o nome de “tolerância” a essa concessão do direito à liberdade de expressão aos cidadãos de uma República ou aos assuntos de um Reino.

Por outro lado, o termo “tolerância” também se tornou relevante em um segundo debate diferente. Naquele momento, as sociedades cristãs estavam enfrentando as dificuldades causadas pela Reforma, e muitos filósofos estavam perguntando como deveriam se comportar em relação aos cristãos de outras denominações.

Um dos filósofos que enfrentou essa difícil questão foi John Locke. Sua posição geral pode ser formulada em termos simples: ele pensou que, apesar de suas diferenças teológicas, os cristãos de diferentes denominações devem ser gentis uns com os outros, e sempre devem lembrar que nenhuma disputa teológica deve abrir as portas para o ódio e a violência.

“Desde que pergunta minha opinião acerca da mútua tolerância entre os cristãos, respondo-lhe, com brevidade, que a considero como o sinal principal e distintivo de uma verdadeira igreja. Porquanto, seja o que for que certas pessoas alardeiem da antiguidade de lugares e de nomes, ou do esplendor de seu ritual; outras, da reforma de sua doutrina, e todas da ortodoxia de sua fé… Se um homem possui todas aquelas coisas, mas se lhe faltar caridade, brandura e boa vontade para com todos os homens, mesmo para com os que não forem cristãos, ele não corresponde ao que é um cristão” (Carta acerca da tolerância).

Como muitos de seus contemporâneos, Locke encontrou a inspiração para esta resposta nas epístolas de São Paulo. Na verdade, encontramos traços de tal inspiração em todos os seus escritos. Além disso, ele desenvolve seus pontos de vista sobre essas questões não como um ensaio ou como um tratado, mas como uma carta (ele mesmo a chama de epístola) e, embora tenha sido dirigida a um único indivíduo (seu amigo, o teólogo holandês Philipp van Limborch), estava claramente escrita tendo em mente toda a comunidade cristã.

Na verdade, poderia argumentar-se que, quando falava de tolerância, Locke estava pensando na noção paulina de caridade e que ele usou o termo “tolerância” para introduzir a caritas cristã no mundo moderno. Mas provar que este é o caso exigiria muito mais do que apenas esta publicação. Por enquanto, digamos, para seduzir o leitor e apontar a fecundidade dessa linha de pesquisa, que foi São Paulo e não Locke, que escreveu as seguintes linhas:

“Fuja dos desejos malignos da juventude e siga a justiça, a fé, o amor e a paz, juntamente com os que, de coração puro, invocam o Senhor. Evite as controvérsias tolas e fúteis, pois você sabe que acabam em brigas. Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente” (2 Timóteo 2,22-24).

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