O amor misericordioso de Deus. Lectio Divina 2017 com Dom Waldemar. 3º sábado

Abrir os olhos e ver as pessoas ao redor, deixar-se iluminar pela Escritura para Iluminar o ambiente onde vivemos. Esse foi o chamado no 3º sábado da Lectio Divina 2017 com  Dom Waldemar Passini na Catedral Diocesana de Luziânia /GO.

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Diocese de Luziânia – Setor Juventude 
Ano Mariano Vocacional (CNBB Centro-Oeste)
Catedral de Luziânia – sábado, 25 de março de 2017

4º Domingo da Quaresma

Lectio Divina

(Proclamação do evangelho: Jo 9,1-41)

Ouvimos um testemunho sobre o poder de Jesus: “uma coisa eu sei: eu era cego, e agora vejo”! Provavelmente, esse é um testemunho que foi repetido inúmeras vezes na história. Hoje estamos aqui para ouvir esse testemunho e de algum modo participarmos dessa graça que é ser iluminado com a luz de Jesus e ver a partir dessa iluminação.

Desejo, de coração, acolher cada um de vocês, irmãos e irmãs, que incluem no itinerário quaresmal o momento de oração comunitária com a Palavra de Deus em nossa catedral de Luziânia. Sejam muito bem-vindos!

Lectio

Vem-me um pensamento ao iniciar da (re)leitura do texto proclamado: a misericórdia divina toca uma pessoa humana, um cego de nascença. Mais que um milagre, estamos diante de um ‘sinal’, no evangelho segundo João. E o sinal tem o poder de comunicar a mesma graça da primeira vez aos que o acolhem com fé.

Estamos sendo convencidos a respeito desse modo divino de ser: amor misericordioso. Vamos aceitando que, de fato, o Filho de Deus assumiu a via da humildade, a condição humana, justamente para se aproximar, nos ver e tocar (Lectio com o evangelho do 1º domingo da Quaresma). Hoje temos mais um exemplo:

Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença.

(Jo 9,1)

Depois, o tocou com sua frágil humanidade:

Dito isto, cuspiu no chão, fez barro com a saliva e aplicou-a nos olhos do cego.

‘Aplicou-lhe’ também o poder da Palavra divina que, acolhida com fé, gera o sinal:

Disse-lhe então: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (que quer dizer: Enviado).

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

(vv.6s)

A partir desse fato começa uma calorosa discussão sobre quem é aquele que abriu os olhos ao cego de nascença. E se chega ao tema de interesse: a origem de Jesus. Depois nos deteremos no debate que esse tema suscita. Agora, porém, passemos ao reencontro de Jesus com aquele que tinha sido cego, no v. 35b:

Quando o encontrou, perguntou-lhe: “Tu crês no Filho do Homem?”

Ele respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”

Jesus disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”.

No início, o cego fora visto por Jesus. Mas, agora, ele vê Jesus! Eis uma apresentação dos frutos da divina ‘misericórdia’: passar a ver aquele que nos vê; amar aquele que nos amou primeiro; desejar quem nos desejou (Lectio com o evangelho do 3º domingo da Quaresma), ansiando por fazer a vontade do Pai, que ‘saciava’ Jesus (cf. Jo 4,33s). Jesus conduz os discípulos à vontade do Pai. Não será precisamente por esse motivo que Jesus inclui os primeiros discípulos naquele plural em Jo 9,4?

Observemos:

É preciso que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, quando ninguém poderá trabalhar…”

Façamos” (?), diz ele, ainda que somente de si mesmo possa afirmar:

“Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”

(v. 5)

Unidos a Jesus (pelo plural do verbo), os discípulos fazem a vontade do Pai. Eis a expressão maior do poder da misericórdia divina: o humano é feito UM com Deus-Amor. Gravemos essa percepção!

Passando, agora, ao diálogo entre o que tinha sido cego e os fariseus, enfrentamos a questão da origem de Jesus, se ele vem ou não de Deus. A convicção de uma parte dos fariseus era clara:

Alguns dos fariseus disseram então:

“Esse homem não vem de Deus, pois não observa o sábado”.

(v. 16)

O que tinha sido cego, ao ser interrogado sobre sua percepção da pessoa de Jesus, responde:

“É um profeta.”

(…) “Se é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”.

(…) “Se esse homem não fosse de Deus, não conseguiria fazer nada”.

(v. 17.25.33)

Diante de tal posição, a reação foi imediata:

Os fariseus, então, começaram a insultá-lo, dizendo:

“Tu, sim, és discípulo dele. Nós somos discípulos de Moisés.

 Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas esse, não sabemos de onde ele é”.

(vv. 28s)

O intrigante, e irônico, é que os judeus estão conversando com um mendigo que era cego, e agora vê e fala com clareza, sem confusão:

O homem respondeu-lhes: “Isto é de admirar! Vós não sabeis de onde ele é?

No entanto, ele abriu-me os olhos! Sabemos que Deus

não ouve os pecadores, mas se alguém é piedoso e faz a sua vontade,

a este ele ouve. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um

cego de nascença. Se esse homem não fosse de Deus, não conseguiria fazer nada”.

(vv. 30-33)

Qual a consequência do debate? – os fariseus se firmaram na própria posição, insultaram o que fora cego e “o expulsaram” (v. 34b). Aquilo que os pais daquele homem temiam, que os expulsassem da sinagoga (cf. v. 22), já se realiza na reação contra o filho deles.

Portanto, de um lado temos aquele “façamos”, em que Jesus une seus discípulos à vontade de Deus; e de outra parte temos a ruptura e a exclusão vivida por quem não tem a luz da fé em Jesus. Duas dinâmicas opostas estão em ato no interior de uma experiência religiosa: inclusão e exclusão. Inclusão, vinda do Alto na pessoa de Jesus. E a exclusão, resultado de um posicionamento religioso “de baixo”, deteriorado em simples construção humana, sem a graça da fé.

Meditatio

Passamos ao segundo momento da Lectio, da leitura à meditação, perguntando-nos sobre essas obras que Jesus deseja realizar:Façamos! “Façamos as obras de Deus”.

Jesus já disse no mesmo evangelho de João:

“Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho”.

(Jo 5,17)

Saindo do templo, ele vê o cego mendigo e, a partir do questionamento dos discípulos sobre a relação da cegueira com o pecado, dos pais ou dele mesmo, novamente se refere às obras de Deus:

“Nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião

para que se manifestem nele as obras de Deus”.

(Jo 9,3)

Desse modo, Jesus estava prolongando no diálogo com os discípulos o tema iniciado no capítulo anterior, na discussão com os judeus no templo. Os judeus afirmavam:

“Nosso pai é Abraão. Jesus, então, lhes disse:

“Se fôsseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de Abraão!

Logo após, Jesus oferece o discernimento sobre o desejo homicida daqueles judeus:

“Vós fazeis as obras de vosso pai”. Eles disseram então a Jesus:

“nós não nascemos da prostituição. Só temos um pai: Deus”. Jesus respondeu:

“Se Deus fosse o vosso pai, certamente me amaríeis, pois é da parte de Deus que eu saí e vim”…

E, concluindo, Jesus diz a eles:

“O vosso pai é o diabo, e quereis cumprir o desejo do vosso pai. Ele era assassino

desde o começo e não se manteve na verdade, porque nele não há verdade.”

(Jo 8,39.41s.44)

Percebemos melhor o sentido daquele “façamos as obras de Deus”. Unem-se, a esta altura, verdade e atuação favorável. Jesus é vem de Deus, pois transborda a bondade que é própria de Deus. Não é uma teoria, mas um modo de viver e agir. A luz do mundo não nos insere na categoria dos iluminados que sabem argumentar sobre todos os fatos e todas as posturas de vida. A luz que ele nos oferece é uma comunhão com o Pai que é bom, e quer manifestar sua bondade na vida daqueles que ele ama, integrando-os no convívio trinitário.

Em outras palavras, Jesus inicia seus discípulos numa nova visão de fé. Não basta dizer: – ‘compreendo’, para quem vê a partir da luz do Senhor. Dogma, doutrina e verdades de fé se reconciliam com a vida real: misto de presença e ausência, força e fraqueza, riqueza e pobreza, saúde e doença. O que é humanamente favorável não indica que já esteja pleno de luz divina. O que é desfavorável não está à margem da potência luminosa que é o Senhor. A fé enriquece, requalifica, restaura ou reorienta toda experiência humana. Em síntese: cada pessoa humana é enriquecida no encontro com Jesus Cristo.

O apóstolo Paulo, na segunda leitura da liturgia deste domingo, nos mostra com toda limpidez a medida de quanto acolhemos a luz que é Jesus:

Irmãos, outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor.

Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se bondade, justiça, verdade.

(Ef 5,8)

Outros texto ecoa na meditação:

Vós sois a luz do mundo. Uma cidade construída sobre a montanha

não pode ficar escondida. Não se acende uma lâmpada para colocá-la

debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para

todos os que estão na casa. Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas,

para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.

(Mt 5,14-16)

Algum de nós, diante daquele ‘façamos’ de Jesus e antes de ouvir estes últimos textos, poderia ainda pensar: – mas quem sou eu para iluminar alguém? Jesus pode curar um cego de nascença, mas eu, definitivamente não posso.

É verdade! Jesus pode, e nós, não. Mas também é verdade que o Senhor nos diz: “façamos as obras de Deus”, e acrescenta: “brilhe a vossa luz…, para que vejam vossas boas obras”. Sim, as boas obras dos discípulos de Jesus podem abrir os olhos dos que as veem, suscitando a fé e o louvor ao Pai que está nos céus, conduzindo à graça da comunhão UNO-trinitária, já sinalizada pela vida na Igreja, UNA.

Peçamos hoje a graça de aceitarmos Jesus completo em nossas vidas: que ilumina e que nos faz iluminar, que nos revela seu amor e nos leva a testemunhá-lo aos irmãos. E que assim nossas comunidades se renovem e cresçam com a chegada dos novos tocados-iluminados.

Em sinal dessa disponibilidade plena para refletir a luz de Jesus em nossas vidas – por atitudes e palavras – vamos agora acender nossas velas e cantar com fé:

Canto: Brilhe a vossa luz (Letra e música: Pe. Ney Brasil)

Oratio

Como resposta orante à Palavra recebida, renovemos nossa profissão de fé, mas de um modo novo. Vamos assumi-la como acolhida do envio à profissão de amor. “Façamos”!

Creio em Deus Pai todo-poderoso…

– Dai-nos, ó Pai, viver a vossa vontade!

Creio em Jesus Cristo, seu único filho…

– Concedei-nos, Senhor, a alegria de realizar as vossas obras!

Creio no Espírito Santo…

– Vinde, Espírito Santo, para que façamos as obras que vós nos inspirais!

Contemplatio

“Tu crês no Filho do Homem?”… Ele Exclamou: “Eu creio, Senhor!”

E ajoelhou-se diante de Jesus.

(Jo 9,35b.38)

Actio

  1. Abrir os olhos e ver as pessoas ao redor. Caso lhe venha uma inspiração numa ocasião, detenha-se diante dessa pessoa e realize o bem que lhe for inspirado;
  2. Iluminar o ambiente de estudo/trabalho como autêntico(a) missionário(a) da luz, com seus frutos: bondade, justiça e verdade.
  3. Deixar-se iluminar pela Escritura na leitura contínua: evangelho segundo Mateus, ou outro livro da bíblia.

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