Perdoar é morrer com Cristo para que o outro viva. Dom Waldemar no Curso Emaús 2017

Não busquemos simplesmente nossas forças para perdoar, busquemos o auxílio da graça, a comunhão com Cristo.

Dom Waldemar Passini, Bispo Diocesano de Luziânia /GO

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Nós, discípulos do Senhor, temos como experiência mais profunda da nossa existência, o perdão dos nossos pecados. Como todas as outras pessoas, somos também pecadores e, por isso, não temos o direito de olhar de nariz empinado para ninguém. A diferença é que somos pecadores perdoados, o que enche a nossa existência de alegria. Não temos mais medo de viver, porque viver é relacionar-se. A consciência das nossas faltas, das nossas negações, nos é perdoada. Além do perdão pelas faltas nas relações entre nós e com a natureza, temos a alegria de sermos perdoados pelas faltas que cometemos diretamente contra Deus, Aquele que sempre nos amou.

Aquele que nos criou, o fez por amor e deu-nos o seu Filho para que tivéssemos comunhão e fôssemos, assim, felizes com Ele. Conhecer Jesus define a nossa essência, somos permeados e penetrados por Deus amor. Nosso Deus vive conosco e isso nos diz que somos perdoados. Se Deus levasse em conta a gravidade das nossas faltas, Ele aceitaria a distância que nós estabelecemos dele, mas Deus encurtou essa distância entregando o seu Filho para nossa salvação. Era necessário que o Filho do Homem entregasse a sua vida para que tivéssemos a alegria do perdão. Era necessário que Ele morresse e sofresse – esse era o plano do amor do Pai, que assim o quis.

Com a resposta que Jesus dá a Pedro no evangelho de hoje, podemos compreender que o fruto do perdão recebido é a possibilidade de perdoar sempre.  Nosso Senhor hoje não nos fala do perdão que algumas pessoas são capazes de dar porque são bondosas ou têm os traços de personalidade propícios para isso; mas do perdão de quem é perdoado por Deus. Sabemos o tamanho da nossa dívida.  Era enorme a fortuna que o empregado da parábola devia ao rei, correspondia a 20 toneladas de ouro, enquanto a dívida do seu semelhante era apenas de 32,5 gramas. Essa é a desproporção da dívida dos nossos irmãos para conosco, frente a quanto fomos perdoados por Deus. Não tem preço que pague o que nos mantém em comunhão. Quanto devo fazer para perdoar o meu irmão…  Às vezes não mandamos uma pessoa embora, mas ficar indiferente a um irmão que se distanciou é tão grave quanto.

Pedro jogou alto e perguntou se deveria perdoar até 7 vezes porque a escritura falava de até 3 vezes, mas por saber da generosidade de Jesus, quis arriscar um valor maior. No entanto, Jesus disse: “não te digo até 7 vezes, mas 70 vezes 7”. Vale esclarecer que essa não é uma matemática humana; é uma matemática divina e quer dizer que não podemos ter limites para o perdão. Todos podem perdoar e o ponto de partida é a certeza de que fomos perdoados.

Devemos pedir incessantemente a graça de perdoar. “Senhor, me dê a graça de ser perdoado e de perdoar”.

Aliás, na parábola, o moço pediu não para ser perdoado, mas um prazo para pagar o que devia. E o rei, que era generoso, perdoou a dívida. Esse rei representa Deus, que é capaz de nos dar muito mais do que pedimos.

O salmo de hoje mostra que Deus não fica repetindo as suas queixas e não guarda rancor. Ele é capaz de afastar de nós os nossos crimes, mas precisamos aceitar o perdão. Isso significa bater no peito e dizer “sou pecador”. Temos mania de achar que somos bons, mas na verdade “somos terríveis”. A cruz de Jesus nos revela o tempo todo que somos pecadores; ao olhar para ela vemos o tamanho do seu amor e descobrimos o quanto somos perdoados pelo sofrimento dele. Uma vez que Ele nos resgatou, vivemos para Ele e morremos para Ele. Se estamos vivos, é para Ele que vivemos. Se morremos, é para Ele que morremos. Então, se um irmão me fere é importante não deixar crescer a ferida, mas arrancar pela raiz e não deixar criar rancor.

A nossa união com o Senhor nos habilita a morrer com Ele. E perdoar é morrer: morrer para as nossas expectativas em relação ao outro; ao modo com que o outro deve se relacionar conosco.

Para que o irmão permaneça vivo, alguém tem que morrer. Quem? – eu. Se escolho viver, e não morrer com Cristo, o irmão fica excluído, afastado, longe da comunidade.  Perdoar é morrer com Cristo para que o irmão viva. A nossa sociedade propõe um caminho de individualismo. Com o Cristianismo, vemos a beleza de sermos Igreja. O Senhor nos deu a coragem de viver promovendo a vida do outro, permitindo que o outro viva, mesmo que eu tenha que me unir a Ele na paixão.

O caminho de Emaús não é só para compreender a Paixão, mas para ter comunhão com Cristo. E depois de partir o pão, Jesus não foi embora. Ele só não ficou mais visível aos olhos dos discípulos. Ele permanece conosco porque Ele mesmo é a comunhão com os seus discípulos e capacitou-os a viver em comunhão para que também os irmãos possam viver.

Transcrição e Adaptação: Larissa Leles, Élida Borges e Luciana Melo.

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