Marcos 11, 27-33
Deus fala, Deus age, Deus manifesta seu amor, mas nem sempre eu estou disposto a escutar. Essa é a verdade, e pronto. Eu, assim como os sumos sacerdotes, os escribas e os anciãos, muitas vezes também questiono a autoridade de Jesus. Eles estavam diante do próprio Filho de Deus, viam seus milagres, ouviam suas palavras, contemplavam suas obras, mas seus corações permaneciam fechados. É assim que muitas vezes o meu coração também se encontra, e preciso atentar para isso.
O grande problema não era a falta de sinais. O problema era a falta de abertura interior. Quantas vezes isso acontece conosco? Pedimos que Deus fale, pedimos respostas, pedimos direção, mas continuamos presos aos nossos próprios pensamentos, aos nossos interesses, às nossas vontades e aos nossos projetos. Queremos que Deus confirme aquilo que já decidimos, e não que Ele nos mostre aquilo que precisamos viver.
É essa a grande verdade na nossa relação com Deus. Os líderes religiosos do Evangelho tinham conhecimento, tinham estudo, conheciam as Escrituras, mas lhes faltava a docilidade ao Espírito Santo. Por isso, não conseguiram reconhecer Jesus. O orgulho fechou seus olhos para a verdade.
Muitas vezes também carregamos dentro de nós uma espécie de “Babel interior”: pensamentos confusos, medos, vaidades, preocupações excessivas, pecados não combatidos e desejos desordenados. Em meio a tanto ruído, a voz de Deus se torna difícil de ser percebida. Não porque Deus deixou de falar, mas porque nosso coração está ocupado demais consigo mesmo.
Isso é muito difícil para um Mel de Deus. O Senhor conduz a história da salvação e realiza seus planos apesar das limitações humanas. Deus continua agindo, falando e chamando. A questão é: eu estou disposto a ouvir?
A fé verdadeira nasce justamente quando deixamos de exigir explicações para tudo e começamos a confiar. A fé não é compreender primeiro para depois acreditar. É acreditar porque conhecemos Aquele que nos ama. Foi assim com Nossa Senhora. Muitas coisas ela não compreendeu imediatamente, mas guardava tudo no coração. Foi assim com os santos, com os apóstolos. Foi assim com tantos homens e mulheres que experimentaram a ação de Deus.
Por isso, Jesus hoje nos convida a uma intimidade mais profunda. Quanto mais íntimos somos de Deus, mais facilmente reconhecemos sua voz. Um filho reconhece a voz do pai no meio da multidão porque convive com ele. Assim também acontece na vida espiritual. Quem reza, quem busca a Eucaristia, quem medita a Palavra e quem vive em estado de conversão aprende a reconhecer os passos de Deus em sua vida.
E então acontece algo extraordinário, que o Mel de Deus conhece bem: os pequenos sinais passam a ser vistos como grandes milagres. Uma porta que se abre, uma dificuldade superada, uma palavra que toca o coração, uma paz inesperada em meio à tribulação, uma confissão bem feita, uma comunhão recebida com amor. Tudo se torna manifestação da providência divina.A maior cegueira não é não ver Deus agir. A maior cegueira é querer que Deus aja do nosso jeito. Quando nos rendemos à sua vontade, nossos olhos se abrem.Que a Virgem Maria, mulher da escuta e da confiança, nos ensine a guardar a Palavra no coração e a responder todos os dias: “Faça-se em mim segundo a tua vontade.”
Autor: Fabrício Martins Brito