Mateus 22,1-14

“Muitos são chamados, poucos são escolhidos.” O Evangelho de hoje nos coloca diante de uma verdade muito profunda: Deus não se cansa de nos chamar. Ele nos ama com um amor que insiste, procura, espera e bate continuamente à porta do nosso coração.

Na parábola, o rei prepara a festa e envia seus servos para chamar os convidados. Alguns não dão importância. Outros estão ocupados demais com suas próprias coisas. E talvez aqui esteja uma das grandes tragédias espirituais dos nossos dias: Deus continua chamando, mas o nosso coração pode estar ocupado demais para escutá-Lo.

São muitos os chamados que recebemos todos os dias. Deus chama pela Sua Palavra, pela Eucaristia, por uma pessoa, por uma dificuldade, por uma inquietação interior, por uma oportunidade de amar, por uma correção, por uma dor. Às vezes, esperamos que Deus fale de maneira extraordinária, enquanto Ele está nos chamando silenciosamente nas coisas mais simples da nossa vida.

E existe um chamado que está na raiz de todos os outros: o nosso Batismo. No Batismo, recebemos uma dignidade que nenhuma conquista deste mundo pode superar: tornamo-nos filhos de Deus, membros de Cristo e templos do Espírito Santo.

O Catecismo ensina que o Batismo nos faz “uma criatura nova”, filhos adotivos de Deus e participantes da natureza divina. Precisamos recuperar dentro de nós essa consciência: eu sou filho de Deus. Antes dos nossos títulos, conquistas, funções, bens e reconhecimento, existe uma identidade infinitamente maior. Nós valemos o Sangue de Cristo. Jesus entregou a própria vida por nós. A Cruz revela quanto vale uma alma aos olhos de Deus.

Mas então chegamos à palavra desconcertante de Jesus: “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.” Isso não significa que Deus ame poucos ou deseje salvar somente alguns. Pelo contrário: Deus chama todos para a comunhão com Ele, e a Igreja ensina que Deus não predestina ninguém ao inferno; a condenação supõe uma rejeição livre e persistente de Deus.

Aqui aparece o mistério da nossa liberdade. Deus chama, mas não violenta o coração. Deus convida, mas não obriga a entrar. Deus oferece a graça, mas espera a nossa resposta. Por isso, talvez seja melhor compreender a “escolha” não como se nós obrigássemos Deus a nos escolher, mas como a nossa resposta livre à graça daquele que primeiro nos chamou e nos amou.

E há ainda algo mais forte na parábola: existe alguém que entrou na festa, mas estava sem a veste nupcial. Isso também precisa nos inquietar.

Porque podemos estar dentro da Igreja e ainda não permitir que Cristo transforme verdadeiramente o nosso coração. Podemos participar da Missa, rezar, servir, pregar, trabalhar na comunidade e, mesmo assim, carregar dentro de nós coisas que resistimos em entregar ao Senhor.

Podemos ter entrado na festa, mas ainda conservar as vestes antigas. A veste antiga do orgulho, da vaidade, da falta de perdão, da prepotência, da maledicência, da sensualidade desordenada, do egoísmo, da necessidade de reconhecimento, de muitos pecados escondidos que não queremos abandonar.

“Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.” É o que ensina São Paulo. Essa é a verdadeira veste para o banquete: revestir-se de Cristo. E aqui está uma grande esperança: não precisamos fabricar essa veste com nossas próprias forças. É a graça de Deus que nos transforma.

Precisamos apenas abrir o coração, arrepender-nos, confessar nossos pecados, abandonar aquilo que nos afasta do Senhor e permitir que o Espírito Santo realize em nós a Sua obra.

Deus continua chamando. Talvez esteja chamando alguém hoje para voltar à Confissão. Outro para perdoar. Outro para abandonar um pecado. Outro para retornar à Eucaristia. Outro para assumir uma missão. Outro para finalmente dizer aquele “sim” que há muito tempo Deus espera.

A pergunta do Evangelho de hoje não é simplesmente: “Deus me chamou?” Ele já chamou. A pergunta é: “Qual será a minha resposta?”

Porque podemos passar a vida inteira recebendo convites de Deus e adiando a resposta. Não basta receber o convite. Não basta entrar na festa. É preciso permitir que Cristo nos revista de uma vida nova.

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