Lucas 7,31-35

No Evangelho de hoje, Jesus compara aquela geração a crianças sentadas nas praças, que dizem: “Tocamos flauta para vós e não dançastes; entoamos lamentações e não chorastes.” Essa Palavra revela uma realidade espiritual muito séria: o perigo de um coração que já não se deixa tocar.

Há motivos para se alegrar, mas ele não se alegra. Há situações que deveriam despertar compaixão e arrependimento, mas ele não chora. Deus fala, chama, consola e corrige, porém nada parece atravessar a sua carapaça.

Ao longo da vida, podemos criar uma espécie de capa protetora ao redor do coração. As dores, as decepções, os traumas, as perdas e as frustrações vão formando uma pele endurecida. Pensamos que essa proteção nos tornará fortes, mas ela pode acabar nos tornando insensíveis.

A mesma barreira que impede a dor de entrar também pode impedir a graça de Deus de nos alcançar. Assim, começamos a viver encapsulados dentro de nós mesmos. Passamos a enxergar tudo a partir de nossas limitações, esquecendo-nos de que Deus é ilimitado.

Quando ficamos presos ao que somos capazes de compreender, calcular e controlar, perdemos a coragem de dar o próximo passo na fé. Tornamo-nos incapazes de perceber as maravilhas que Deus realiza e as graças que Ele deseja derramar sobre nós.

O coração endurecido também começa a julgar. João Batista veio levando uma vida de penitência, e disseram que ele estava possuído pelo demônio. Jesus veio sentando-se à mesa com pecadores, e o acusaram de ser comilão e beberrão.

Para quem não deseja se converter, nenhuma manifestação de Deus é suficiente. Se Deus consola, criticamos. Se Deus corrige, reclamamos. Se Ele age de maneira diferente daquela que esperávamos, desconfiamos.

Muitas vezes, nossos julgamentos não nascem da verdade, mas de feridas que ainda não foram curadas. Criamos conceitos e preconceitos baseados em experiências dolorosas e passamos a olhar as pessoas através das lentes dos nossos traumas.

Julgamos sem conhecer toda a história, condenamos sem possuir todos os elementos e falamos como se conhecêssemos completamente o coração do outro. Mas somente Deus conhece verdadeiramente o coração humano.

Quando nos falta sabedoria, entendimento e vida de oração, corremos o risco de chamar de errado aquilo que Deus está conduzindo e de rejeitar aqueles que Ele está utilizando.

Essa dureza abre uma brecha perigosa: o inimigo utiliza nossas feridas para produzir desconfiança, divisão, orgulho e afastamento de Deus.

Por isso, precisamos recuperar um coração de criança. Não um coração infantil ou ingênuo, mas um coração simples, ensinável e confiante. Um coração capaz de se alegrar com quem se alegra, de chorar com quem chora, de reconhecer os próprios erros e de permanecer aberto às surpresas de Deus.

Hoje, o Senhor nos pergunta: “Ainda consigo tocar o seu coração?”

Diante dessa pergunta, não precisamos esconder nossas resistências. Podemos reconhecer humildemente:

“Senhor, fui eu quem permitiu que meu coração se endurecesse. Construí defesas, alimentei julgamentos e me fechei por medo de sofrer novamente. Mas a tua graça é maior do que a minha dureza.

Hoje, eu abro as portas do meu coração e te dou livre acesso. Retira de mim toda insensibilidade, cura os meus traumas e purifica os meus julgamentos. Gera em mim a bondade, a esperança, a fé, a generosidade e a caridade.

Dá-me um coração de criança, capaz de confiar em Ti e de reconhecer a tua presença. Amém.”

Que hoje a flauta de Deus ainda encontre em nós a alegria. Que o sofrimento do próximo ainda encontre em nós compaixão. E que a voz de Jesus encontre um coração aberto, sensível e disposto a transformar-se.

Autor: Fabrício Martins Brito

Membro de aliança da comunidade Mel de Deus

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