Quem é Badia? Quem é Valdice D’Abadia? Para mim, Badia é a casa do Pai. É esse lugar escondido no coração de Deus que Ele escolheu para gerar filhos amados para Ele. É como se, no coração do Pai, houvesse uma morada preparada para acolher, gerar, formar e devolver ao Céu tantas almas. Essa é Badia.
Badia é uma mulher de escuta
Mas, antes de tudo aquilo que ela faz, Badia é filha. Filha amada, dileta, querida. Filha que aprendeu a viver debaixo do olhar do Pai e que, mesmo com toda a responsabilidade que Deus colocou sobre seus ombros, nunca deixou de se reconhecer pequena diante d’Ele. Badia é esposa, é mãe, é avó, é viúva, é celibatária, é fundadora da Comunidade Mel de Deus, é professora aposentada, é sobrinha, neta, tia, madrinha, amiga. É uma mulher de fé, de esperança, uma mulher que transformou o sofrimento em salvação de almas. Mas há uma coisa que, para mim, explica todas as outras: Badia é uma mulher de escuta. E a escuta de Badia nasce da humildade.
Desde o começo de sua caminhada existe uma característica que atravessa toda a sua história: ela fala com Deus e escuta Deus. O sonho do purgatório não foi simplesmente um acontecimento extraordinário em sua vida. Foi um chamado, uma voz que a alcançou e diante da qual ela teve a humildade de parar, acolher e perguntar: “Senhor, o que queres de mim?”. E essa pergunta parece atravessar toda a sua história. Badia não é uma mulher que simplesmente decide o que fazer e depois pede que Deus abençoe seus planos. Ela aprendeu a perguntar primeiro: “Pai, o que o Senhor quer?”.
E talvez esteja aí um dos maiores segredos de sua fecundidade. Porque, quando chegou a dor mais terrível, quando a vida irrompeu diante dela de maneira brutal, quando seu esposo morreu em seus braços, ela não encontrou respostas prontas dentro de si. Ela rezou. Ela buscou. Ela entrou em oração. Ela quis saber de Deus como viver aquele luto, como atravessar aquela morte, como continuar. E, naquele lugar de extrema fragilidade, o Céu se manifestou. Deus se revelou a ela de maneira extraordinária. A glória, o lírio, as rosas vermelhas, a experiência com Jesus Misericordioso… sinais que foram se tornando, para ela, a linguagem de um Deus que não estava distante. Era o Pai falando com sua filha. E Badia escutando.
É isso que mais me impressiona nela. Badia escuta. Escuta nas grandes decisões e nos pequenos detalhes. Escuta quando precisa governar, quando precisa formar, quando precisa evangelizar. Escuta até aquilo que parece pequeno demais para merecer atenção. Até a beleza. Até uma ornamentação. Até uma flor. Até aquilo que, aos olhos do mundo, poderia parecer apenas um detalhe, para ela pode carregar uma pergunta: “O que o Esposo amado quer?”. E isso não tem preço, porque não estamos falando apenas de sensibilidade espiritual. Estamos falando de abandono. De uma escuta genuína, simples, quase infantil. Uma criança que acredita que o Pai está falando, que acredita que o Pai está agindo, que acredita que o Pai sabe o caminho.
Pequena via de Santa Teresinha
Por isso, quando penso em Badia, penso inevitavelmente na pequena via de Santa Teresinha. Não como uma teoria, mas como uma vida encarnada. A pequena via é aquela confiança radical de quem sabe que é pequeno, que não consegue subir sozinho, mas acredita que o Pai pode descer. E eu consigo imaginar Badia dizendo: “Pai, eu não dou conta de subir. Mas o Senhor dá conta de descer até mim”. Isso é humildade. Não é negar os dons. Não é negar a missão. Não é fazer de conta que não existem capacidades, responsabilidades ou autoridade. É saber exatamente quem se é diante de Deus: “Eu sou pequena. Eu tenho limites. Eu não dou conta de tudo. Mas o meu Pai dá”.
E essa humildade cativa. Essa humildade abre o Céu. Essa humildade parece ser uma das chaves pelas quais Deus abriu as portas da Mel de Deus. Porque a Comunidade não nasceu fundamentada no poder humano, na força, na inteligência ou na capacidade das pessoas. Tudo isso pode e deve ser colocado a serviço de Deus, mas a raiz é outra. A raiz é uma mulher dizendo: “Pai, eu dependo de Ti”. E Deus responde mostrando que Ele é realmente Pai, que pode fazer todas as coisas.
E assim Deus foi transformando uma história que poderia ter sido marcada pela prostração, pela tristeza e pelo fechamento em uma história de amor, de missão e de salvação de almas. Porque o sofrimento de Badia não ficou fechado nela. O sofrimento foi transformado em salvação. A dor não teve a última palavra. A morte não teve a última palavra. O abandono não teve a última palavra. Deus teve a última palavra. E a palavra de Deus foi fecundidade. Foi comunidade. Foi missão. Foram filhos. Foram almas. Foram vidas alcançadas. Foram pessoas que descobriram que também são filhas amadas do Pai.
Talvez por isso eu consiga compreender tão profundamente aquela palavra de Jó: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te viram”. Parafraseando essa experiência para Badia, eu diria: “Badia, você ouviu falar de Deus. Você ouviu a Sua voz. Você viu os Seus sinais. Mas, sobretudo, você aprendeu a viver com Ele”. E essa é a diferença. Ela não apenas ouviu falar do Céu. Ela viveu olhando para o Céu. Ela não apenas ouviu falar de Nossa Senhora. Ela construiu uma intimidade verdadeira com a Mãe. Ela não apenas ouviu falar dos anjos. Ela experimentou a realidade espiritual como alguém que sabe que o invisível é verdadeiro. Ela não apenas ouviu falar do combate espiritual. Ela conheceu também a realidade da luta, da batalha e da necessidade de permanecer em Deus.
Céu, purgatório, inferno, anjos, demônios, graça, misericórdia, combate, sofrimento, glória… Deus permitiu que, ao longo de sua caminhada, tantas realidades espirituais tocassem concretamente a sua história. Mas existe algo ainda maior: Badia não vive dessas experiências. Ela vive de Deus. Porque o extraordinário só tem sentido quando conduz ao essencial. E o essencial, para ela, é o Pai. É o colo. É a confiança. É a dependência. É poder dizer: “Pai, o que quer que o Senhor me peça, por mais difícil que seja, eu acredito que é bom. Eu acredito que salva. Eu acredito que conduz ao Céu”.
Essa é Badia
Essa é Valdice D’Abadia. Uma mulher que aprendeu a viver como filha. Uma mulher que se deixou conduzir. Uma mulher que, mesmo tendo de governar, aprendeu primeiro a obedecer. Mesmo tendo de falar para muitos, aprendeu primeiro a escutar. Mesmo tendo de ensinar, permaneceu discípula. Mesmo sendo mãe de uma multidão, permaneceu filha. Mesmo carregando uma missão imensa, permaneceu pequena. E talvez seja justamente por isso que Deus tenha podido fazer tanto através dela. Porque a Mel de Deus é o transbordamento de uma vida rendida à voz do Pai.
A Comunidade é fruto dessa escuta. A missão é fruto dessa escuta. As almas alcançadas são fruto dessa escuta. A beleza é fruto dessa escuta. A coragem é fruto dessa escuta. A perseverança é fruto dessa escuta. Tudo nasce daquele lugar secreto onde uma mulher, diante do seu Deus, pergunta: “Pai, o que o Senhor quer?”. E permanece disponível para responder: “Eis-me aqui”.
Hoje, nos seus 74 anos, eu não quero celebrar apenas a mulher que fundou a Mel de Deus. Quero celebrar a filha que Deus encontrou. A filha que disse sim. A filha que sofreu. A filha que chorou. A filha que caiu. A filha que recomeçou. A filha que continuou acreditando. A filha que descobriu que o Pai pode transformar lágrimas em sementes, feridas em portas de salvação e sofrimentos em lugares de encontro com Ele. Quero celebrar a mulher que aprendeu que não precisava ser grande para que Deus fizesse grandes coisas. Precisava apenas pertencer-Lhe inteiramente.
Badia, para mim, você é isso: uma filha que acreditou no Pai. Uma mulher que se colocou no colo de Deus e disse: “Eu não sei. Eu não consigo. Eu não dou conta. Mas eu confio no Senhor”. E talvez seja justamente essa confiança que tenha aberto tantas portas. Porque o Céu não encontrou em você alguém que queria construir algo para si. Encontrou uma filha disposta a deixar o Pai construir através dela.
Badia: Casa do Pai
Por isso, quando olho para você, vejo uma mulher, mas vejo também uma casa: a casa do Pai. Uma casa onde filhos chegam, onde feridos encontram acolhimento, onde pecadores descobrem misericórdia, onde os pequenos aprendem a ser filhos, onde se fala de Deus, onde se escuta Deus, onde se aprende a amar Deus, uma casa que aponta para o Céu. E talvez seja isso que você seja para tantos de nós: um lugar onde o Pai nos fez lembrar que somos Seus filhos amados.
Parabéns, Badia. Parabéns pelos seus 74 anos de vida, de abandono, de entrega, de pequenez, de escuta, de combate, de lágrimas, de milagres, de fidelidade e de amor. Que você continue sendo aquilo que sempre foi no coração do Pai: uma filha pequena, profundamente amada, inteiramente dependente, disponível para escutar Sua voz e caminhar com Ele na missão de salvar almas.
E que a Mel de Deus continue sendo apenas isso: o mel que transborda de uma vida que pertence inteiramente ao Pai.
Nós te amamos. E hoje, mais do que dizer “parabéns”, queremos dizer: obrigada por ter escutado. Porque, quando você escutou o Pai, muitas vidas encontraram o caminho de volta para casa.
Feliz aniversário, nossa mãe fundadora. Feliz aniversário, Badia.
Que Nossa Senhora continue te guardando no seu colo, que os anjos continuem te acompanhando no combate e que Jesus Misericordioso continue sendo o centro de tudo. E que, até o último dia, você possa permanecer simplesmente assim: filha. Filha do Pai. Pequena. Amada. E inteiramente d’Ele.
Debrinha Mel de Deus, cofundadora.