“Parece que foi ontem”
No dia 24 de setembro de 2026, a Igreja da Paraíba se reuniu em ação de graças pelos 20 anos de ordenação episcopal de Dom Delson. Na Catedral da Arquidiocese da Paraíba, bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas, autoridades e todo o povo de Deus celebraram uma caminhada marcada pelo serviço à Igreja, pelo anúncio do Evangelho e pelo cuidado com o povo que lhe foi confiado.
A celebração foi também marcada pela memória e pela fraternidade. Em nome dos bispos presentes, Dom José Ruy recordou a trajetória de Dom Delson e resumiu o sentimento diante de duas décadas de episcopado com uma expressão simples: “Parece que foi ontem”. O tempo passou, novas responsabilidades surgiram e diferentes comunidades foram confiadas ao seu cuidado, mas a memória daqueles primeiros momentos permanece viva entre os irmãos.
Há 20 anos, Dom Delson estava em Roma, exercendo o serviço de conselheiro-geral da Ordem dos Capuchinhos para a América Latina. Sua nomeação para o episcopado estava prestes a ser publicada. Naquele momento, uma nova etapa se aproximava, mas sem apagar a caminhada que já havia sido construída dentro da vocação capuchinha e no serviço à Igreja.
A missão de anunciar a paz
Ao refletir sobre esses vinte anos de ministério episcopal, Dom Severino recordou que a missão de Cristo está profundamente ligada ao anúncio da paz: “Vos deixo a minha paz, eu vos dou a minha paz”. Essa paz não é simplesmente algo que encontramos pronto. Ela precisa ser acolhida, vivida e construída, começando no coração daquele que recebe a missão de anunciá-la.
Jesus levou a Boa-Nova aos pobres, aproximou-se dos rejeitados, caminhou com os doentes e sofredores e esteve junto daqueles que muitas vezes eram deixados à margem. Sua missão não consistia apenas em transmitir palavras, mas em caminhar com as pessoas, santificar, ensinar e conduzir cada uma delas para uma vida nova.
É nesse horizonte que se compreende também a missão da Igreja. Anunciar a paz significa continuar levando ao mundo aquilo que Cristo anunciou e viveu. A paz cristã nasce da presença de Deus e alcança a vida concreta das pessoas. Por isso, aquele que recebe uma missão dentro da Igreja é chamado também a se aproximar, servir e caminhar com o povo que lhe é confiado.
“Ide aos meus irmãos”
Essa dimensão do serviço aparece de maneira muito significativa no lema episcopal de Dom Delson: “Ide aos meus irmãos”. Dom José Ruy recordou que a expressão foi encontrada em uma das cartas circulares da Ordem dos Capuchinhos e que ela traduz uma dimensão essencial de sua caminhada: ir ao encontro dos irmãos e colocar-se a serviço deles.
A escolha do lema também trouxe uma lembrança bem-humorada. Dom José contou que Frei João Corrêa, então ministro-geral da Ordem, chegou a brincar dizendo que Dom Delson havia tomado para si um lema que ele próprio havia escolhido e publicado anteriormente. A lembrança revela o ambiente de fraternidade que marcou a homenagem e mostra como a caminhada de Dom Delson está profundamente ligada à história dos irmãos capuchinhos.
“Ide aos meus irmãos” não aparece, portanto, apenas como uma frase escolhida para o episcopado. O lema também recorda uma disposição de vida: sair de si, encontrar os irmãos e colocar-se a serviço da missão recebida. É uma expressão que se harmoniza com a própria caminhada de Dom Delson, marcada por diferentes responsabilidades e sempre orientada pelo serviço.
Uma vida construída no serviço
Antes de chegar ao episcopado, Dom Delson percorreu um longo caminho dentro da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Dom José Ruy recordou que, aos 32 anos, ele havia sido eleito pela primeira vez ministro provincial dos Capuchinhos da Bahia. Desde cedo, portanto, sua trajetória esteve marcada por responsabilidades e pelo serviço aos irmãos.
Essa experiência também esteve ligada à formação e à missão de comunicação. Dom Delson realizou estudos em Comunicação Social em Roma, na Pontifícia Universidade Salesiana, e colocou essa formação a serviço da evangelização. O rádio, a televisão e outros meios de comunicação passaram a ser instrumentos para levar a mensagem do Evangelho a mais pessoas.
A comunicação, assim, foi compreendida como serviço. Não se tratava apenas de utilizar instrumentos de comunicação, mas de colocá-los a serviço da missão da Igreja, fazendo com que a mensagem cristã chegasse aos lugares e às pessoas que precisavam ouvi-la.
O serviço também ultrapassou as fronteiras de uma única realidade. Dentro da Ordem dos Capuchinhos, Dom Delson assumiu responsabilidades ligadas ao governo geral e esteve em contato com comunidades de diferentes países da América Latina. Essa experiência permitiu-lhe caminhar com diferentes povos e irmãos, conhecendo realidades diversas e colocando-se a serviço da Igreja em diferentes contextos.
“Os capuchinhos são escolhidos para servir”
Ao recordar um encontro recente em Assis, durante as celebrações dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis, Dom José Ruy trouxe uma frase que ajudou a iluminar essa caminhada. Naquele encontro, bispos capuchinhos de todo o mundo estiveram reunidos, e uma das conferências tinha como tema: “Os capuchinhos são escolhidos pela Igreja para servir à Igreja nos lugares mais difíceis”.
A frase ajuda a compreender uma característica da vocação capuchinha recordada durante a homenagem. O chamado não se limita a uma função ou a um lugar específico. Ele envolve disponibilidade para servir onde a Igreja necessita, caminhar com os irmãos e anunciar o Evangelho.
Essa trajetória de serviço dentro da Ordem preparou também o caminho para um novo chamado. Quando surgiu a vacância da Arquidiocese da Paraíba, mais uma vez um capuchinho foi chamado para uma missão exigente. Dom Delson respondeu com outro “sim” a Deus e tornou-se o sétimo arcebispo da Paraíba.
A graça do chamado
Para Dom José Ruy, existe uma graça que antecede todas as demais e sustenta a caminhada: “A graça do chamado”. Antes das responsabilidades, das funções e das tarefas, existe o chamado de Deus. É essa graça que dá sentido à resposta e permite compreender a missão não simplesmente como uma função, mas como um serviço recebido.
A passagem da vida religiosa para o ministério episcopal não significou abandonar a história anterior. A missão mudou de forma, mas permaneceu a disposição de servir. O religioso capuchinho que havia servido à Ordem passou a servir uma Igreja particular, assumindo o cuidado pastoral da Arquidiocese da Paraíba.
Dom Severino também destacou essa dimensão do ministério episcopal ao recordar a missão do bispo como sucessor dos apóstolos. O bispo recebe a responsabilidade de santificar, ensinar e governar o povo de Deus. Trata-se de uma missão que não é exercida sozinho, mas em comunhão com toda a Igreja e com o sucessor de Pedro.
O Reino de Deus chegou até nós
A missão de Jesus está ligada à implantação do Reino de Deus. Cristo veio anunciar que o Reino chegou e que nele a justiça encontra seu verdadeiro sentido. É a justiça que gera condições para uma verdadeira paz, porque a paz cristã não pode ser separada da verdade, da dignidade e do cuidado com o outro.
Jesus chamou homens simples e confiou a eles a continuidade de sua missão. A partir dos apóstolos, essa missão chegou até nós por meio da Igreja. A sucessão apostólica mantém viva essa continuidade, e o ministério episcopal se insere nessa missão recebida de Cristo.
Por isso, celebrar os vinte anos de Dom Delson como bispo significa também recordar uma missão que ultrapassa sua pessoa. Trata-se de um serviço que está inserido na missão maior da Igreja: anunciar o Reino de Deus, levar a Boa-Nova e conduzir o povo ao encontro com Cristo.
Uma Igreja de comunhão e unidade
A Igreja é católica porque possui uma dimensão universal. Ela está presente em diferentes povos, culturas e lugares, mas permanece unida em Cristo. Essa unidade reúne diferentes vocações, ministérios e carismas em uma mesma missão, sem apagar a riqueza própria de cada chamado.
Desde os apóstolos, a Igreja carrega o testemunho daqueles que entregaram a própria vida pelo Evangelho. Sua história foi marcada pelo sangue dos primeiros cristãos, pelo testemunho dos santos e pela fidelidade daqueles que continuaram anunciando Cristo em diferentes épocas e lugares.
Essa história continua na Igreja da Paraíba. A celebração dos vinte anos de Dom Delson como bispo está inserida nessa caminhada maior. Ao agradecer por seu ministério, a Igreja também reconhece que ninguém realiza sozinho a missão recebida de Cristo. O serviço acontece dentro da comunhão e conta com a participação de muitos.
O bispo não caminha sozinho
Dom Severino recordou que os sacerdotes e diáconos são os primeiros colaboradores do bispo. Cada um, de acordo com o próprio ministério, participa da missão de santificar, ensinar e servir ao povo de Deus, sempre em unidade com aquele que recebeu o cuidado pastoral da Igreja particular.
Por isso, uma celebração como essa não pode ser compreendida apenas como uma homenagem pessoal. Os vinte anos também recordam todas as pessoas que caminharam ao lado de Dom Delson durante esse período. O ministério episcopal acontece dentro da comunhão da Igreja e se realiza com a colaboração de sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas e leigos.
Essa dimensão comunitária também esteve presente nas palavras de Dom José Ruy. Ao final de sua homenagem, ele falou em nome dos bispos da Província Eclesiástica da Paraíba e dos confrades capuchinhos, deixando um abraço fraterno e agradecido por tudo aquilo que Deus realizou na vida de Dom Delson.
A chama que permanece
Em sua homenagem, Dom José Ruy também recorreu a uma imagem simples e ligada à memória das famílias: as antigas fogueiras de São João. A lembrança das fogueiras celebradas em família tornou-se uma imagem para falar da própria vocação e da chama que permanece acesa ao longo da caminhada.
A imagem ganhou um significado especial ao ser aplicada ao ministério de Dom Delson: “A fogueira continua acesa”. Hoje, porém, essa chama está também sobre o altar, em cada lugar onde Dom Delson celebra a Santa Missa.
A imagem recorda que o chamado recebido não ficou preso a um momento do passado. A chama continua presente na missão cotidiana. Vinte anos depois da ordenação episcopal, permanecem a entrega, o serviço e a resposta ao chamado que Deus fez.
Religiosos, religiosas e novas comunidades
A caminhada da Igreja também acontece por meio da diversidade das vocações. Religiosos, religiosas, comunidades de vida apostólica e novas comunidades possuem diferentes carismas e formas de serviço, mas todos participam da mesma missão evangelizadora.
Dom Severino recordou que cada vocação possui seu lugar dentro da Igreja. Os diferentes carismas são dons que enriquecem a comunidade quando vividos em comunhão. Cada pessoa é chamada a reconhecer o lugar que Deus lhe confia e a colocar seus dons a serviço do anúncio do Evangelho.
Essa diversidade manifesta a ação do Espírito Santo na Igreja e recorda que a missão não pertence a um único grupo. Todos são chamados a colaborar, cada um segundo a própria vocação, para que o Reino de Deus alcance a vida das pessoas.
Os seminaristas são esperança para o amanhã
Entre aqueles que participam dessa missão estão também os seminaristas. Eles representam uma esperança para o futuro da Igreja, porque estão se preparando para assumir novas responsabilidades no serviço ao povo de Deus.
Cuidar das vocações significa cuidar do futuro da Igreja. Por isso, a comunidade cristã é chamada a acompanhar aqueles que estão em formação, rezar por eles e ajudá-los a discernir e viver com fidelidade o chamado recebido.
Os seminaristas ainda estão no caminho da preparação, mas já fazem parte da esperança da Igreja. Neles está a expectativa de novos servidores e pastores que poderão, amanhã, dedicar sua vida ao anúncio do Evangelho e ao cuidado do povo de Deus.
Os leigos: protagonistas da evangelização
A missão da Igreja também depende profundamente da participação dos leigos. Eles estão presentes nos mais diversos ambientes da sociedade e possuem uma responsabilidade própria na evangelização. A fé não pode permanecer restrita aos espaços propriamente religiosos, porque o Evangelho precisa alcançar a vida concreta.
O leigo não é apenas alguém que assiste à vida da Igreja. Ele é chamado a participar ativamente da missão, levando a fé para dentro da família, do trabalho, da sociedade e das diferentes estruturas onde sua vida acontece.
Por isso, existe um chamado para que os leigos despertem para essa responsabilidade e não permaneçam escondidos. Cada cristão pode colaborar para que o Evangelho chegue aos ambientes onde está inserido e para que o Reino de Deus se faça presente nas realidades concretas da sociedade.
Uma Igreja em saída
Essa participação de todos conduz ao chamado por uma Igreja em saída. A Igreja não pode permanecer fechada em si mesma. Ela é chamada a sair ao encontro das pessoas e levar o Evangelho para onde a vida acontece.
Cada cristão precisa reconhecer sua identidade e sua vocação. Não basta receber a fé; é necessário testemunhá-la. O Evangelho precisa ser anunciado também nas realidades concretas da sociedade, nos ambientes de trabalho, nas famílias e nos espaços onde cada pessoa exerce suas responsabilidades.
A missão evangelizadora, portanto, não pertence somente aos ministros ordenados. Cada batizado possui uma responsabilidade dentro da Igreja. A partir da própria vocação, dos dons recebidos e da realidade em que vive, cada cristão pode colaborar para que a mensagem de Cristo alcance novos lugares.
“Metade é verdade, a outra metade é carinho”
Ao aproximar-se do final de sua homenagem, Dom José Ruy recordou uma frase de Frei Jeremias Capelli: “Quando alguém é homenageado, metade é verdade, a outra metade é carinho”.
A frase expressou bem o sentido daquela celebração. Havia, de um lado, a verdade de uma história conhecida pelos irmãos: os anos de serviço, as responsabilidades assumidas, a vocação capuchinha, o chamado ao episcopado e os vinte anos vividos no ministério. De outro, estava o carinho daqueles que haviam caminhado com Dom Delson e desejavam manifestar sua gratidão.
Ali estavam os bispos da Província Eclesiástica da Paraíba e os irmãos capuchinhos para reconhecer aquilo que faz parte da caminhada de Dom Delson e expressar o carinho que têm por ele. A homenagem tornou-se, assim, um gesto de fraternidade entre aqueles que compartilham uma história de Igreja e de serviço.
Sob o olhar da Virgem Maria
Ao recordar a missão episcopal de Dom Delson, a Igreja também eleva seu olhar para a Virgem Maria. Dom Severino confiou a ela a caminhada do arcebispo, pedindo que a Mãe do Senhor o acompanhe e proteja, juntamente com todos aqueles que colaboram em seu ministério e com o povo que lhe foi confiado.
A missão episcopal, como toda missão cristã, permanece nas mãos de Deus. Por isso, a Igreja pede a intercessão de Nossa Senhora para que o Senhor continue sustentando Dom Delson em seu serviço e o ajude a permanecer fiel ao chamado recebido.
Que a Virgem Maria acompanhe também todos aqueles que caminham com ele: bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, seminaristas e leigos. Que ela cubra com seu manto a Igreja da Paraíba e todos aqueles que trabalham pelo anúncio do Evangelho.
Paz e Bem
Ao recordar os vinte anos de ordenação episcopal de Dom Delson, a Igreja da Paraíba contempla uma caminhada que passou pela vocação capuchinha, pelo serviço à Ordem, pela comunicação, pelo contato com diferentes comunidades da América Latina e, posteriormente, pelo ministério episcopal.
São diferentes etapas, mas uma mesma direção. Em todas elas aparece o chamado a servir, caminhar com os irmãos e anunciar o Evangelho. A missão mudou de forma, os lugares mudaram e as responsabilidades se ampliaram, mas permanece a graça daquele primeiro chamado que sustenta toda a caminhada.
Por isso, a celebração dos vinte anos é прежде de tudo uma ação de graças. A Igreja agradece a Deus por aquilo que realizou na vida de Dom Delson e por todos aqueles que fizeram parte de sua caminhada. Agradece também pelos irmãos que continuam ao seu lado no serviço à Igreja e pelo povo que lhe foi confiado.
Ao concluir sua homenagem, Dom José Ruy deixou, em nome dos bispos presentes e dos confrades capuchinhos, um abraço fraterno e agradecido. Vinte anos se passaram. A história é longa, mas a memória ainda parece recente.
“Parece que foi ontem.”
E, acima de todas as palavras, permanece a homenagem maior recordada no início da celebração: oferecer o “pão vivo descido do céu”. É diante do altar, na Eucaristia, que a Igreja agradece a Deus pelos vinte anos de episcopado de Dom Delson e pede que a graça do chamado continue sustentando sua missão.
Paz e Bem!