As batalhas iniciais e a graça da vitória
Queridíssima Comunidade Mel de Deus, queridíssimos irmãos e irmãs, estamos vivendo o primeiro Encontro de Filhos de Padre Pio, e este primeiro dia também pode ser compreendido como o primeiro dia de uma batalha. A vida espiritual é assim: uma contínua luta, uma contínua batalha. Mas existe algo que precisamos aprender desde o início: quando chega a vitória, quando vem a graça de Nosso Senhor, a alegria é tão grande que muitas vezes já nem nos lembramos de tudo aquilo que sofremos para chegar até ali.
São Paulo utiliza uma imagem muito bonita para falar desse processo. Quando uma mãe está para dar à luz, a dor do parto pode ser intensa e parecer interminável. Entretanto, depois que aquela mãe recebe o seu filho nos braços, começa a amamentá-lo e contempla aquela nova vida, muitas vezes já não se lembra da mesma maneira da dor que passou. A alegria da chegada do filho transforma a maneira de olhar para aquilo que foi vivido.
Assim também acontece na nossa vida espiritual. Passamos por batalhas, enfrentamos desafios, experimentamos momentos difíceis e, muitas vezes, temos vontade de desistir. Entretanto, precisamos manter o foco, conservar a fé e continuar caminhando. A dor da batalha não pode nos fazer esquecer a alegria da vitória que Deus deseja realizar em nossa vida.
O valor da perseverança até o fim
Uma das grandes lições aprendidas ao longo da caminhada em João Pessoa pode ser resumida em uma frase muito simples: “Começar bem é maravilhoso, mas o importante é a gente perseverar até o fim”. Não basta ter um começo bonito, viver uma experiência forte ou participar de um momento especial. A verdadeira prova daquilo que Deus realizou em nós aparece também na capacidade de permanecer.
A história da Renovação Carismática Católica em João Pessoa testemunha isso. Muitas pessoas que participaram dos primeiros tempos daquela caminhada permaneceram firmes ao longo dos anos. Gerôncio, Amanda, Alba, Dona Carmo, Dona Criusa, Irmã Margarida, Terezinha, Osanite, Menininha, Ieda e tantos outros são lembrados como pessoas que Deus utilizou desde o início e que perseveraram mesmo passando por muitas batalhas.
É por causa da perseverança dessas pessoas que hoje podemos estar aqui. Alguém permaneceu nos grupos de oração. Alguém continuou rezando durante anos. Alguém continuou formando, servindo e acreditando mesmo quando as circunstâncias eram difíceis. A história de uma comunidade não é construída apenas por aqueles que começam, mas também por aqueles que permanecem quando chegam as provações.
Essa mesma realidade foi contemplada na visita à casa de Tia Luíza. Ela já não pode sair de casa, mas foi possível celebrar com ela e perceber a alegria de uma mulher que dedicou toda a sua vida a cuidar de tantas pessoas. Quantos já foram atendidos por Dona Luíza? Quantas pessoas passaram por sua vida? Talvez muitas delas nem estejam presentes hoje, mas fazem parte da história que Deus foi construindo através de sua entrega.
São essas pessoas que nos dão a certeza de que vale a pena, meus irmãos. O caminho de Deus possui muitos desafios, mas vale a pena continuar. Existem muitas espiritualidades na Igreja, mas o Senhor nos chamou a viver esta espiritualidade carismática, na força do Espírito Santo e da experiência do Batismo no Espírito Santo.
Testemunhos que atravessam gerações
Quando olhamos para além da nossa própria realidade, também encontramos testemunhos que confirmam o valor da perseverança. No Brasil, podemos recordar Padre Léo, candidato aos altares; Emiliano Tardif, também candidato aos altares; e Monsenhor Jonas Abib, que até o final de sua vida ofereceu um testemunho de fé.
Essas histórias mostram que Deus espera de nós uma caminhada perseverante. Não se trata apenas de experimentar a graça em determinado momento, mas de permitir que ela transforme a vida ao longo dos anos. A experiência inicial precisa tornar-se fidelidade, e a fidelidade precisa conduzir a uma vida inteira entregue a Deus.
Por isso, o primeiro encontro também pode ser compreendido como um convite para olhar para o futuro. Não basta começar com entusiasmo. É preciso pedir a graça de permanecer, especialmente quando o entusiasmo diminui, quando surgem as dificuldades e quando a caminhada exige sacrifício.
O chamado para a juventude
A primeira leitura do dia, retirada do livro do Eclesiastes, fala também da alegria própria da juventude e da adolescência. É uma fase marcada por emoção, aspirações, sonhos e desejos. A juventude possui uma força própria, mas também enfrenta muitos riscos, porque é justamente nesse período que muitas pessoas podem se perder.
Existe uma batalha pela juventude. E essa preocupação não deve envolver apenas os próprios jovens, mas também os pais e mães. Foi destacada especialmente a realidade das crianças, porque existe o risco de que elas sejam alcançadas cada vez mais cedo por aquilo que pode aprisioná-las. Quanto mais cedo determinados vícios entram na vida de uma criança, mais difícil pode ser o caminho posterior de conversão.
Diante disso, é preciso recordar o valor de oferecer aos jovens e às crianças uma experiência viva da fé. Ao olhar para a própria adolescência, foi recordada a graça de já estar dentro da Igreja entre os 14 e 15 anos, participando da vida da comunidade e fazendo comentários nas Missas. Não havia interesse pelas festas ou pela bebida, mas permanece a pergunta: o que teria sido daquela vida sem as pessoas que Deus colocou no caminho para apresentar uma realidade completamente nova?
Era uma fé católica apaixonante e apaixonada por Nosso Senhor, um amor pela Palavra de Deus, pela oração e por uma espiritualidade alegre, capaz de oferecer força para enfrentar os desafios. A experiência mostra como uma pessoa pode ser instrumento de Deus para mudar o rumo da vida de um jovem.
A experiência do Batismo no Espírito Santo
Essa história também se conecta com as experiências vividas no interior da Paraíba. Houve um tempo em que, durante a semana, era preciso trabalhar e, na sexta-feira à tarde, depois do expediente, reunir um pequeno grupo em uma caminhonete para percorrer cidades como Guarabira, Sousa, Cajazeiras, Pombal e outras localidades do sertão.
Eram sete ou oito pessoas que partiam para levar a experiência do Batismo no Espírito Santo. Eram viagens, encontros e experiências que exigiam disposição, mas que também permitiam testemunhar aquilo que Deus realizava na vida de muitas pessoas.
Entre essas lembranças está a história do então seminarista Antônio Furtado, da Comunidade Shalom. Naquele período, ele estava em Cajazeiras e desejava receber o Batismo no Espírito Santo, embora ainda não compreendesse bem o que significava aquela experiência.
Começaram a rezar por ele e, de repente, ele começou a orar em línguas com uma força muito grande. Era o início dos anos 1980, em uma cidade do interior, e aquela manifestação chamou a atenção das pessoas que estavam do lado de fora. Foi uma experiência forte, que marcou sua caminhada. Depois, Antônio Furtado encontrou a Comunidade Shalom e tornou-se instrumento de Deus para muitas pessoas.
A lembrança desse episódio mostra como Deus pode começar uma obra em uma pessoa muito antes de aquilo que Ele realizará tornar-se visível. Uma experiência vivida aparentemente em um pequeno grupo pode fazer parte de uma história muito maior. Por isso, nunca devemos desprezar aquilo que Deus pode fazer através de um encontro, de uma oração ou de um simples sim.
O valor do jovem dizer “sim”
Na juventude, Nosso Senhor pode realizar grandes coisas. Por isso, é preciso pedir novamente que os jovens sejam batizados no Espírito Santo e tenham uma experiência viva com o Senhor. A Palavra de Deus diz: “Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes e vencestes o maligno”.
A tentação procura convencer o jovem de que ele é fraco, incapaz e facilmente derrotado. Entretanto, quando um jovem se entrega a Nosso Senhor, Deus pode fazer maravilhas nele e através dele. A juventude não deve ser vista apenas como uma fase de riscos, mas como um tempo de força, sonhos e capacidade de entregar-se inteiramente a Deus.
Essa realidade aparece também no testemunho relacionado ao Frei Oslan. Quando ainda estava no ano do diaconato e havia ido morar em Ocidental, existia um movimento de jovens chamado SEGME. Embora os encontros fossem muito bons inicialmente, muitas vezes faltava continuidade e alguns jovens acabavam voltando para a vida anterior.
Foi então feito o convite para realizar a primeira pregação do encontro, com o tema “Olhando do Alto”. A princípio, havia até certa resistência, mas a experiência recorda uma verdade importante: Deus utiliza aquilo que quer e espera de nós obediência.
A pregação foi realizada de todo o coração. Quando estava chegando ao final, veio ao coração uma indicação para sair caminhando pelo auditório. Diante de um jovem, foi proclamada uma palavra: muitos poderiam chorar, emocionar-se e fazer festa ao chegar em casa, mas talvez não perseverassem. Para aquele jovem, porém, veio uma palavra diferente: Jesus estava dizendo que ele iria perseverar.
Algum tempo depois, aquele mesmo jovem voltou e contou que praticamente havia sido obrigado pelos pais a participar do encontro. Não gostava daquilo e pretendia encontrar uma desculpa para ir embora. Entretanto, aquela palavra recebida durante a pregação havia tocado profundamente seu coração. Depois, descobriu sua vocação e decidiu que queria ser sacerdote.
Era o querido Frei Oslan. Hoje, um sacerdote da Igreja, um homem que ajuda tantas pessoas porque, naquele momento, escutou uma palavra e permitiu que Deus conduzisse sua vida. A história recorda que Jesus possui um plano de amor para cada pessoa e que uma palavra dita com fé pode tornar-se instrumento para uma decisão que muda toda uma existência.
A iniquidade e a segurança na graça de Deus
O tempo presente também apresenta grandes desafios. Foi utilizada a palavra “iniquidade” para descrever uma realidade na qual o certo passa a ser considerado errado e o errado passa a ser considerado certo. Quando alguém procura viver corretamente ou ensinar a verdade, pode acabar sendo perseguido. É uma situação em que o mal ganha espaço e o pecado passa a ser tratado como se fosse a referência maior.
Não se trata de assumir uma postura pessimista, mas também não é possível ignorar aquilo que está acontecendo. Basta olhar para tantas notícias e tragédias para perceber que o mundo apresenta grandes feridas. Diante dessa realidade, não podemos colocar nossa esperança simplesmente na capacidade humana de resolver tudo.
Entretanto, temos um refúgio. Temos um lugar seguro e Alguém que pode nos defender. Quando estamos em meio às trevas e acendemos uma pequena luz, aquela luz chama a atenção justamente porque existe escuridão ao redor. Uma pequena chama consegue iluminar um ambiente inteiro.
Assim deve ser a nossa fé. Assim é o nosso Deus. Não precisamos ser a escuridão que reclama da escuridão. Somos chamados a ser luz. Mesmo que seja pequena aos olhos humanos, a luz possui a capacidade de iluminar e apontar um caminho.
A brevidade da vida e a esperança na graça
O Salmo também nos apresenta uma imagem muito forte para falar da brevidade da vida. Somos comparados à erva verde dos campos que, pela manhã, floresce e aparece viçosa, irrigada pelo orvalho. Depois vem o sol da tarde, a planta murcha e seca. Assim também é a nossa existência.
À medida que os anos passam, começamos a perceber com mais clareza a rapidez da vida. Quando alguém chega aos 50 anos, percebe que já viveu uma parte significativa de sua história neste mundo. E, recordando que Jesus viveu 33 anos, pode-se até dizer, com bom humor: quem já passou dos 33 está no lucro.
Quem já passou dos 50 pode olhar para trás e dizer: “Obrigado, meu Deus!”. A caminhada já foi longa e, como foi recordado, quem já deu a volta no Cabo das Tormentas sabe que aquilo que vem pela frente também possui seus desafios.
É justamente por reconhecer a instabilidade da vida que precisamos compreender onde está nossa verdadeira segurança. Não está na idade, nas circunstâncias, nos bens, na saúde ou na ausência de problemas. A única segurança verdadeira é permanecer na graça de Deus.
Por isso, precisamos aprender a declarar de todo o coração: “Se Deus é por mim, quem será contra mim? Se Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou pela minha salvação, quem me acusará? Quem me separará do amor de Deus?”. É preciso crescer nessa fé e nessa confiança, especialmente quando a vida nos coloca diante de situações que não conseguimos controlar.
A graça de chegar à velhice
Ao final, a oração se voltou de modo especial para os anciãos, para aqueles que já passaram dos 60 anos e chegaram à terceira idade. Essa etapa da vida não deve ser recebida simplesmente como um peso ou como motivo de vergonha. Chegar aos 60 anos é também uma graça e uma vitória, porque muitas pessoas não tiveram a oportunidade de chegar até essa idade.
Por isso, aqueles que já passaram dos 60 anos foram convidados a se colocar à frente, assim como os jovens haviam feito anteriormente, para receber uma oração. Cada idade possui sua missão, seus desafios e suas graças. A juventude precisa ser conduzida e fortalecida; a maturidade precisa permanecer perseverante; e a velhice precisa ser reconhecida como uma etapa preciosa da caminhada.
A vida espiritual é uma luta contínua, mas também é uma caminhada de vitória. O importante não é apenas começar bem, mas perseverar até o fim. As batalhas podem ser grandes, mas a graça de Deus é maior. E quando chegar a vitória, poderemos olhar para trás e perceber que valeu a pena permanecer fiéis.