Hoje, celebrando a Transfiguração do Senhor, meu coração ficou imaginando o que aconteceu antes daquela subida ao monte. Se voltarmos algumas páginas do Evangelho, veremos que Jesus e os discípulos viviam dias intensos. Eram multidões e mais multidões, pessoas que buscavam uma cura, um milagre, uma palavra, uma direção, uma esperança. Todos queriam tocar Jesus. Todos queriam um pouco d’Ele.

E, consequentemente, os discípulos estavam envolvidos em tudo. Ajudavam a acolher, a organizar, a servir, a ouvir e a evangelizar. Era um dia inteiro de trabalho, um dia inteiro de missão, um dia inteiro de desgaste. O próprio Evangelho chega a dizer que, em alguns momentos, eles nem tinham tempo para comer.

Então imagino o fim daquele dia. O corpo cansado, a mente exausta, o coração já sem forças. É justamente nesse momento que Jesus diz: “Vamos subir a montanha para rezar.”

E não era uma caminhada qualquer. O Monte Tabor é alto. A subida é exigente. Era noite. Não havia iluminação, nem lanternas, nem qualquer recurso que facilitasse o caminho. Apenas a escuridão, o silêncio da montanha e a companhia de Jesus.

E eu imagino os discípulos pensando: “Rezamos o dia inteiro. Servimos o dia inteiro. Evangelizamos o dia inteiro. Ainda vamos subir uma montanha para rezar?” Mesmo assim, Pedro vai. João também. Tiago acompanha.

E fico imaginando que eles não foram porque eram obrigados. Foram porque preferiam Jesus. Gostavam da companhia d’Ele. Gostavam de vê-Lo rezar. Gostavam simplesmente de estar onde Ele estava. E talvez esteja aí um dos maiores segredos da vida espiritual.

A eleição de Jesus nunca é um privilégio arbitrário. Ela nasce de um coração que também O prefere. Quanto mais escolhemos Jesus, mais descobrimos que Ele já nos havia escolhido desde sempre. Quem prefere a presença de Cristo acaba vivendo intimidades que muitos não experimentam.

Depois de tanta caminhada, chegam cansados. Dormem. E era justo dormir, porque o corpo tinha chegado ao seu limite. Mas justamente ali, naquele lugar onde o homem termina suas forças, Deus começa a revelar a Sua glória. Jesus se transfigura.

O que significa isso? Significa abrir um pedaço do Céu. É como se Jesus dissesse: “Eu sei que haverá cansaço. Eu sei que haverá cruz. Eu sei que haverá incompreensões. Vocês servirão pessoas que talvez nunca entendam o tamanho do amor que receberam. Vocês se doarão muito e, muitas vezes, parecerá que nada valeu a pena. Mas não parem olhando para esta terra… Tudo isso passa. Eu não passo.”

A Transfiguração do Senhor é Deus rasgando o véu da eternidade. É Jesus mostrando qual é o verdadeiro rosto da realidade. Tudo aqui é passageiro: a dor passa, a perseguição passa, os elogios passam, as críticas passam, os sucessos passam, os fracassos passam. Até a nossa própria vida nesta terra passa. Mas Ele permanece para sempre.

O verdadeiro rosto da nossa existência é Cristo glorioso. É para essa luz que caminhamos. Naquele momento aparece Moisés: a Lei, a vontade de Deus. Depois aparece Elias: os profetas. Toda a Palavra que anunciava o Messias converge para Jesus, como se o Pai dissesse: “Tudo aquilo apontava para Ele.”

E então vem a nuvem, sinal da presença do Espírito Santo. Em seguida, ouve-se a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o.” A Lei encontra seu cumprimento. As profecias encontram sua realização. Toda a história encontra seu sentido em Jesus.

Que espetáculo… Mas, mais do que espetáculo, que consolo! Jesus sabia exatamente o que esperava aqueles três discípulos. Pedro seria crucificado de cabeça para baixo. Precisava guardar dentro da alma uma esperança tão forte que nenhuma cruz fosse capaz de apagá-la.

João viveria o martírio branco. Quase cem anos carregando a saudade do Mestre. Quanto conforto seria recordar aquele dia em que viu o Céu antes de chegar ao Céu. Tiago seria o primeiro dos apóstolos a entregar a própria vida. Precisava saber que o machado do perseguidor não teria a última palavra. A última palavra seria sempre a glória.

Por isso, a Transfiguração do Senhor não é apenas uma manifestação da divindade de Jesus. É uma antecipação da nossa eternidade. É a festa do Céu. É a festa da esperança. É a festa daquilo que permanece para sempre.

Talvez por isso Pedro tenha dito: “Senhor, é bom estarmos aqui.” E eu também quero dizer hoje: Senhor, é bom estar Contigo. É bom viver esta intimidade. É bom fazer parte de uma comunidade que não aponta para o imediatismo deste mundo, mas para a eternidade.

É bom ser Mel de Deus. Porque o nosso carisma não quer nos prender ao passageiro. Quer nos conduzir à intimidade. Quer nos fazer experimentar a presença de Deus. Quer nos ensinar a viver, já nesta terra, aquilo que um dia viveremos plenamente no Céu.

A verdadeira transfiguração acontece dentro de nós. É a conversão. É quando nossos valores mudam. Quando deixamos de viver apenas para aquilo que passa e começamos a viver para aquilo que permanece. É trocar o provisório pelo eterno. É trocar o imediato pela eternidade. É trocar as luzes deste mundo pela Luz que nunca se apaga.

Hoje eu queria deixar uma pergunta para você. Quantas vezes você continuou preferindo Jesus, mesmo cansado? Mesmo no meio das tribulações? Mesmo quando parecia que nada acontecia? Você continuou indo à Santa Missa, rezando o seu terço, fazendo adoração, buscando a confissão, lendo a Palavra, fazendo penitência, servindo e caminhando.

E, justamente porque continuou preferindo Jesus, um dia aconteceu algo extraordinário. Uma experiência de Deus impossível de explicar. Um consolo, uma luz, uma certeza. Uma paz que não tinha explicação humana. Uma pequena transfiguração.

Porque é assim. De tanto preferirmos Jesus, chega um momento em que Ele nos mostra um pedaço do Céu. Não para que permaneçamos na montanha, mas para que tenhamos forças de atravessar todos os calvários da vida.

Até o dia em que não veremos apenas um reflexo da Sua glória. Seremos definitivamente mergulhados nela. E contemplaremos, para sempre, o rosto luminoso daquele Amor que um dia encantou a nossa alma.

Débora Mendes

Vice Moderadora da comunidade Mel de Deus

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