João 12,24-26
“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto.” (Jo 12,24)
Muitas vezes acreditamos que, com as nossas próprias forças, podemos produzir grandes frutos. Confiamos na nossa inteligência, na nossa experiência, na nossa capacidade e até nos dons que o próprio Deus nos concedeu. E realmente temos dons. Deus nos capacitou para muitas coisas. O problema começa quando passamos a confiar mais no dom que recebemos do que no Deus que nos deu o dom.
Porque uma coisa é aquilo que eu consigo fazer com os dons que Deus me deu. Outra coisa, infinitamente maior, é aquilo que Deus consegue fazer através de mim quando eu verdadeiramente me entrego a Ele. É aí que Jesus nos apresenta hoje o mistério do grão de trigo.
O grão possui dentro de si uma enorme potencialidade. Dentro daquele pequeno grão existe uma vida inteira. Mas existe uma condição: ele precisa aceitar desaparecer na terra. Enquanto quiser permanecer intacto, continuará sendo apenas um grão. E talvez esse seja também o nosso problema espiritual.
Queremos produzir frutos, mas não queremos morrer. Queremos que Deus realize o extraordinário através de nós, mas queremos continuar preservando nossas vontades, nossas seguranças, nossas vaidades, nosso orgulho, nossos medos, nossos traumas e nosso amor-próprio desordenado. Queremos dizer: “Senhor, usa-me”, mas continuamos dizendo interiormente: “Desde que seja do meu jeito.”E assim vamos colocando limites àquilo que Deus deseja realizar. Por isso, existem mortes que precisam acontecer dentro de nós. Precisa morrer a necessidade de controlar tudo, a vaidade de sermos reconhecidos, a necessidade de termos sempre razão, o medo de obedecer e a vontade de aparecer.
Precisa morrer aquilo que nos faz confiar mais em nós mesmos do que na Providência de Deus. São pequenas mortes que doem, mas que libertam. Porque morrer para si mesmo não significa destruir aquilo que somos. Significa permitir que Deus transforme aquilo que somos naquilo para o qual fomos criados.
O grão não é destruído inutilmente quando morre na terra. Pelo contrário: é justamente quando parece desaparecer que começa a revelar toda a vida que carregava dentro de si. Assim também acontece conosco. Talvez exista dentro de você uma capacidade de amar que ainda não apareceu.
Talvez exista uma capacidade de servir que você ainda desconhece. Talvez exista uma fecundidade espiritual extraordinária escondida dentro da sua vida. Talvez Deus queira alcançar muitas pessoas através de você. Mas existe uma pergunta: O que ainda precisa morrer em mim para que Deus possa produzir esses frutos?
Jesus foi o primeiro a viver aquilo que ensinou. Ele próprio tornou-se o grão lançado à terra. Entregou-se completamente ao Pai, passou pela Cruz, entrou no silêncio do sepulcro e, da sua entrega, nasceu para nós a vida eterna.
Por isso, seguir Jesus significa aprender também a dizer: “Senhor, eu não quero mais viver apenas segundo aquilo que eu consigo fazer. Quero viver segundo aquilo que Tu podes fazer através de mim.” Essa é uma grande diferença.
Enquanto eu confio somente nas minhas forças, os frutos terão o tamanho das minhas forças. Enquanto eu confio somente na minha inteligência, os frutos terão o limite da minha inteligência. Enquanto eu confio somente na minha capacidade, chegarei somente até onde minha capacidade consegue chegar.
Mas quando eu me entrego verdadeiramente nas mãos de Deus, já não sou eu quem estabelece o limite dos frutos. É a graça que começa a agir. São Paulo compreendeu profundamente esse mistério quando disse: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”Talvez seja essa a palavra que precisamos guardar hoje: não tenha medo de morrer para aquilo que impede Cristo de viver plenamente em você. Se morrer a vaidade, Cristo crescerá. Se morrer o orgulho, Cristo crescerá. Se morrer a necessidade de controle, Cristo crescerá.
Se morrer o egoísmo, Cristo crescerá. Se morrer a nossa vontade quando ela se opõe à vontade de Deus, muitos frutos poderão nascer. No fundo, o cristão não precisa ter medo de perder a vida por Cristo. Porque, quando morremos para nós mesmos, encontramos uma vida muito maior.E, quando chegar o dia em que fecharmos definitivamente os olhos para este mundo, se tivermos vivido unidos a Ele, abriremos os olhos para contemplar Aquele por quem valeu a pena entregar tudo.
Autor: Fabrício Martins Brito
Membro de aliança da comunidade Mel de Deus