João 1,45-51

No Evangelho, Jesus olha para Natanael e faz uma afirmação extraordinária: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade.” Antes mesmo de Natanael reconhecer Jesus, Jesus já conhecia Natanael. Conhecia sua história, suas perguntas, suas buscas e, principalmente, conhecia aquilo que havia no mais profundo daquele homem: um coração reto, desejoso da verdade.

Natanael não era perfeito. Aliás, pouco antes havia perguntado com certo preconceito: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Mas havia nele algo que agrada profundamente a Deus: ele não queria viver de mentira. Podia estar enganado, podia ter conceitos errados, mas desejava encontrar a verdade.

E existe uma diferença enorme entre estar enganado e amar o engano. Deus consegue conduzir um homem que está enganado, mas que sinceramente procura a verdade. Porque, quando a Verdade finalmente se apresenta diante dele, seu coração é capaz de se render.

Foi assim com Natanael. Quando Jesus toca exatamente naquele lugar da sua história que ninguém conhecia — “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi” — alguma coisa desaba dentro dele. E Natanael responde: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel.”

Talvez esse seja um dos grandes sinais de um coração reto: quando percebe que estava errado, ele não luta para defender o próprio erro. Ele se rende à verdade.

Isso também nos faz recordar São Paulo. Paulo perseguia os cristãos acreditando estar defendendo a causa de Deus. Estava profundamente equivocado, mas havia nele um coração radicalmente comprometido com aquilo que acreditava ser verdadeiro.

E quando, no caminho de Damasco, encontrou-se com Cristo, sua vida mudou completamente. Aquele que perseguia Jesus passou a viver por Jesus. Aquele que combatia o Evangelho passou a anunciar o Evangelho. Aquele que prendia cristãos terminou dando a própria vida por Cristo.

Porque um coração verdadeiramente apaixonado pela verdade, quando encontra Aquele que é a Verdade, não consegue permanecer o mesmo. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”

O problema é que também podemos procurar a verdade no lugar errado. E talvez aqui esteja uma palavra muito atual para nós. Todos buscamos alguma coisa capaz de dizer ao nosso coração: “É isso. Aqui está aquilo que você procurava.”

Buscamos felicidade. Buscamos reconhecimento. Buscamos segurança. Buscamos amor. Buscamos sucesso, dinheiro, prazer, relacionamentos, aprovação, poder, controle.

E muitas vezes nossas feridas, nossos medos, nossas frustrações e nossa própria história fazem com que transformemos determinadas coisas em verdades absolutas para nossa vida.

“Se eu conseguir isso, serei feliz.” “Se eu tiver aquilo, finalmente estarei realizado.” “Se aquela pessoa me amar, minha vida estará completa.” “Se eu alcançar determinada posição, terei valor.”

E o inimigo sabe trabalhar exatamente nessas regiões do coração. Ele dificilmente apresenta uma mentira dizendo: “Isto é uma mentira.” Ele apresenta algo aparentemente bom, atraente e até razoável, mas deslocado do lugar de Deus.

É assim que uma coisa boa pode tornar-se um ídolo. E passamos anos correndo atrás de algo que prometia preencher nosso coração, mas nunca consegue preenchê-lo completamente.

Santo Agostinho descobriu isso depois de procurar felicidade em tantos lugares: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

Quando encontramos Jesus, os valores começam a mudar. Esse é um dos sinais mais belos de uma verdadeira experiência com Cristo. Aquilo que antes parecia enorme começa a ficar pequeno. E aquilo que antes parecia pequeno começa a revelar valor de eternidade.

Antes, perder dinheiro parecia uma tragédia; depois, percebemos que perder a graça é infinitamente pior. Antes, queríamos ser admirados pelos homens; depois, começamos a desejar ser agradáveis a Deus.

Antes, queríamos vencer discussões; depois, começamos a desejar ganhar almas. Antes, buscávamos possuir; depois, começamos a descobrir a alegria de entregar.

Antes, tínhamos medo de perder esta vida; depois, começamos a compreender que fomos criados para a eternidade. É Jesus reordenando o coração.

E essa transformação não acontece toda de uma vez. O Senhor vai educando os nossos afetos, purificando nossos desejos, corrigindo nossas intenções e conduzindo-nos progressivamente para a perfeição. É o caminho da santidade.

Todos são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Santidade, portanto, não é privilégio de alguns poucos escolhidos. É o destino para o qual Deus chama cada um de nós.

“Verás coisas maiores do que estas.” Depois da profissão de fé de Natanael, Jesus lhe faz uma promessa: “Crês porque te disse: ‘Eu te vi debaixo da figueira’? Coisas maiores que esta verás!”

Que palavra extraordinária. Natanael acreditava ter encontrado a resposta. Jesus lhe diz, praticamente: você ainda não viu nada. Existe muito mais.

Quanto mais caminhamos com Cristo, mais nossos olhos começam a enxergar aquilo que antes não enxergavam. Não necessariamente milagres extraordinários. Há coisas muito maiores acontecendo silenciosamente: conseguir perdoar alguém que nos feriu; permanecer fiel quando seria mais fácil abandonar tudo; encontrar paz no meio da tribulação.

Perceber Deus conduzindo acontecimentos aparentemente sem sentido; descobrir alegria na oração; começar a desejar a Eucaristia; reconhecer a própria miséria sem perder a esperança; olhar para uma cruz e descobrir nela amor.

São coisas que os olhos do mundo não conseguem enxergar. É o olhar da fé.

Por isso Jesus continua dizendo: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.” É como se dissesse: Natanael, permanece comigo. Você ainda verá o céu se abrir.

E essa promessa também é para nós. Talvez tenhamos passado muito tempo procurando a verdade nas coisas deste mundo. Talvez tenhamos acreditado em algumas ilusões. Talvez tenhamos colocado nossa esperança em coisas que prometiam muito e entregaram muito pouco.

Mas Cristo continua passando diante de nós. E hoje Ele nos pergunta: você deseja realmente conhecer a verdade, mesmo que ela destrua algumas das verdades que você criou para si mesmo?

Porque esse é o coração reto. Não é o coração daquele que nunca errou. É o coração daquele que pode até estar errado, mas deseja tanto a verdade que, quando Cristo lhe mostra o caminho, tem coragem de abandonar o erro e segui-Lo.

Autor: Fabrício Martins Brito

Membro de aliança da comunidade Mel de Deus

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